Discurso de Entrega do Báculo
 

  

DISCURSO DE DOM GERARDO, POR OCASIÃO DA ENTREGA DA DIOCESE DE PATOS A DOM MANOEL DOS REIS DE FARIAS, SEU SUCESSOR

Neste momento solene em que entrego o báculo ou o bastão de Bispo e Pastor da Diocese de Patos ao meu sucessor, o nosso estimado Dom Manoel dos Reis de Farias, cabe-me uma palavra de despedida.

Quem fala em despedida evoca uma convivência que termina e uma esperança que começa. Termina minha convivência com as responsabilidades pastorais da Diocese, minha caminhada junto ao bom Povo de Deus desta Igreja. Interrompe-se a vida em comum como Bispo Diocesano e inicia-se a minha vida separada, como Bispo Emérito. Resta agora um olhar retrospectivo para o passado da minha vida com vocês, que hoje se encerra. Resta, porém uma vista para o horizonte do futuro ou do amanhã que se aproxima com a tomada de posse do novo Bispo e Pastor de Patos Dom Manoel dos Reis de Farias. Interrompe-se hoje, a minha vida em comum com a Diocese de Patos, seja como Bispo Diocesano, seja como Administrador Apostólico, por um período de 18 anos. “Fomos servos inúteis, como diz o Evangelho, não fizemos nada, senão o que devíamos fazer”.

A missão de Bispo é um mistério de Fé. E é sob o prisma de fé que se deve ver e entender o bispo. Não se avalia um Bispo pelas aparências e apenas que faz. Cumpre penetrar com os olhos da fé na profundidade de seu ser e da Missão que Ele desenvolve em nome e na pessoa de Cristo. Pode-se aplicar a ele as palavras do profeta Simeão a respeito do Deus Menino, Jesus. “Eis que este menino foi colocado para queda e ruína e também para o surgimento de muitos em Israel, e como um sinal de contradição. E assim serão desvendados os pensamentos de muitos corações” (Lc 2,33-35).

Palavras misteriosas, que refletem com impressionante exatidão, a Missão de Jesus, de sua Igreja, e, consequentemente de um Bispo.

Cristo veio proclamar o Reino de Deus. Foi sinal de contradição. A Igreja existe em função do Reino de Deus, que é um Reino da Verdade, da Justiça, da Paz e do Amor. Ela existe em função do Povo de Deus, sobretudo do Povo pobre, os prediletos de Deus. Torna-se, também, sinal de contradição.

Por isto, repito: a missão do Bispo é um mistério de fé.

Durante 18 anos, a Igreja de Patos se tornou o objeto de minhas preocupações, desvelo, dedicação e atenções e a quem cheguei a amar profundamente, como algo a que se está indissoluvelmente unido, pelo vinculo de fé, em Cristo. “Não há maior prova de amor do que dar a vida por aqueles que se ama”.

Durante 18 anos de minha vida de Bispo em Patos procurei Ser fiel ao lema de meu Episcopado tirado da carta de São Paulo aos Coríntios: “Tudo faço pelo Evangelho”.

Pregamos o Cristo crucificado, loucura para os orgulhosos e os sem fé, mas poder e sabedoria de Deus, para os chamados ao conhecimento de Cristo. “O que é tido como loucura de Deus é mais sábio que os homens; e o que se julga fraqueza de Deus é mais poderoso do que os homens”.

Assim, as alegrias e as tristezas, as esperanças e as angustias, sobretudo dos pobres e dos que sofriam, eram os meus anseios e os caminhos de minha vida de Bispo aqui em Patos. Posso dizer como São Paulo: Chorava com os que choravam e me alegrava com os que se alegravam.

Interrompe-se hoje a minha vida em comum com a Diocese e inicia-se a vida separada.

Não é sem uma certa saudade e sem dor que deixo minhas responsabilidades pastorais para com esta porção do Povo de Deus, cujo crescimento espiritual e evangélico, acompanhei com carinho e amor, durante um período de 18 anos de minha vida episcopal. Sinto que vínculos quase indissolúveis que me prenderam a esta fervorosa comunidade diocesana se rompem drasticamente.

Deixo a Diocese com a agrura de uma certa saudade e de um adeus definitivo. Há 18 anos fui chamado para Patos. Procurei com minhas limitações ser fiel ministro de Cristo e dispensador dos Mistérios de Deus, para servir ao seu povo e para me dizer no dizer de São Paulo: escravo de todos e fazer tudo pelo Evangelho de Cristo, Senhor Nosso. O caminho, a verdade e a vida e de todos os que o seguem.

Posso afirmar com convicção que estes 18 anos foram os mais ricos para mim, na minha caminhada de fé e de minha vida sacerdotal.

São os mistérios da economia divina. “Evangelizar: não é glória para mim, senão necessidade” (Paulo Apostolo). “Ai se mim se não evangelizar”. “Ai de mim se me calasse”. O Evangelho é liberdade e libertação.

Quero agora deixar expressos os mais vivos e elevados sentimentos de gratidão e reconhecimento a todos quantos me ajudaram nas mais diversas circunstâncias e horas difíceis, a desempenhar a contento meu ministério episcopal, promovendo o enriquecimento eclesial, pastoral, espiritual e social desta querida porção do povo de Deus.

Não poderia neste momento de despedida esquecer a colaboração irrestrita dos queridos sacerdotes, das religiosas, dos dedicados cristãos leigos, dos movimentos, dos agentes de pastoral, das comunidades eclesiais, enfim de todos os amigos e colaboradores, cujos nomes não posso mencionar, mas que os levo no coração e no “palco da minha vida…”.

A todos que com o estímulo, o incentivo de sua amizade cristã e de sua participação evangélica ajudaram a realizar-me como pessoa humana e a ser fiel ao ônus episcopal, o meu muito obrigado. Deus lhes pague…

Deixo a Diocese, pedindo desculpas de minhas faltas e de meus erros e pecados. Se a alguém ofendi, se alguém tem magoa ou queixa de alguma ofensa minha, queira perdoar-me. Todos nós somos grandes e somos pequenos. Somos anjos e somos demônios. Somos santos e pecadores. Somos grandes e nobres nas fraquezas e erros e somos miseráveis nas nossas grandezas. Só Deus é grande e Santo e só Ele nos compreende e perdoa devidamente.

Se fui pequeno na ofensa, que seja grande ao menos em pedir perdão. O ódio e o ranço jamais se aninharam em meu coração.

Amo a todos e desejo que todos se amem cada vez mais em Cristo e tenham um melhor conhecimento d’Ele, de sua Igreja e de Seu Bispo – Pastor.

Neste momento em que transmito a missão de Bispo Diocesano de Patos ao meu sucessor, o digno Bispo Dom Manoel dos Reais de Farias, desejo-lhe que brilhe a luz da esperança e de um novo caminho de graças e bênçãos. Que Dom Manoel, com as qualidades e virtudes que possui, realize o que nossa limitação não conseguiu realizar, para levar ao povo de Deus, o Evangelho, “que é força de Deus para a salvação de todo aquele que acredita” (São Paulo).

Vivemos numa época de profunda evolução e de grandes transformações, com inúmeros desafios. Tudo progride e evolui: na técnica, na escola, na universidade, na educação, nas comunicações, na família e na política, etc.

Também na Igreja, assistimos a transformação bastante profundas. Isso nos leva a ter a impressão de nos desligarmos do passado, pela maneira de praticar a religião. A Igreja encarnada no mundo participa das transformações do mundo.

Vivamos corajosamente – à luz da Fé – o presente que caminha para o futuro. (partir…)

O Senhor que vem está no futuro.

Dom Manoel é a perspectiva para o futuro e o alvorecer para o amanhã da Igreja de Deus em Patos.

Que Nossa Senhora da Guia, a Virgem Mãe de Deus elevada à glória do Céu, amor e esplendor da Igreja triunfante, seja guía do nosso querido Dom Manoel em sua Missão Episcopal e seja consolo e esperança do povo de Deus, na caminhada para o Pai, com a força do Espírito Santo.

 

Dom Gerardo Andrade Ponte

01/12/2001

 
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